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14 abril, 2012

A Louca de Chaillot


Já faz uns trinta anos que assisti ao filme a Louca de Chaillot, e desde então tenho procurado esse filme nas locadoras para ver de novo e não encontro.

O filme é baseado na peça homônima do escritor francês Hypolite Jean Giraudoux e dirigido pelo ator, produtor, diretor e roteirista inglês Bryan Forbes, com Katharine Hepburn e Yul Brynner nos papéis principais.

É a história de uma velha condessa, pertencente à aristocracia francesa arruinada, que ainda conserva a sua velha casa, suas jóias, sua pose, suas lembranças e seu vestuário. Ela costuma freqüentar um café de Paris, onde se encontra com outras figuras, igualmente empobrecidas, remanescentes da velha aristocracia, que agora vivem de lembranças, e com as quais se reúne, às vezes, para tomar um chá em sua casa.

Indignada com a avidez dos que querem transformar a cidade de Paris num imenso campo de prospecção de petróleo, ela e seus amigos começam a montar um tribunal secreto, no porão da casa, onde serão julgados os maus empreendedores.

Para isso, envia correspondências a todos eles, informando-os de que, no subsolo de sua mansão, existe um poço de petróleo, e os convida para visitarem o local.

Enquanto isso, convida uma velha amiga, juíza aposentada, a presidir o tribunal, e a outros antigos membros da nobreza, hoje transformados em mendigos, trapeiros e papeleiros, para desempenharem papéis de advogados de acusação e defesa. E assim têm abertura os trabalhos, onde cada político ou empresário inescrupuloso é julgado por seus crimes.

Na medida em que os convidados (réus) vão chegando, depois de proferidas suas sentenças prévias, são conduzidos ao subsolo, sob o pretexto de visitarem ali uma suposta jazida de petróleo.

Depois que todos os convidados são previamente julgados, sentenciados e executados, isto é encerrados para sempre no escuro subterrâneo revestido de pedras de sua casa, para onde cada um deles é convidado a descer por uma escada, então a porta é fechada, definitivamente, e a condessa e seus auxiliares dão por encerrada a sessão daquele tribunal improvisado.

Em linhas gerais a história é essa, mas o filme não se resume nisso. É uma verdadeira pérola cinematográfica, do princípio ao fim, com o seu roteiro, seus diálogos, sua filosofia e sua realidade.

A velha condessa, chamada de louca por sua excentricidade, e seus amigos, promovem o ato de justiça a um estado ideal de eficácia e imparcialidade.



06 janeiro, 2012

O Piano






Na época vitoriana, quando a Nova Zelândia estava há pouco tempo sendo colonizada, para lá se muda Ada McGrath (Holly Hunter), um mulher que quando tinha seis anos de idade resolveu parar de falar. Ela vai na companhia de sua filha, Flora (Anna Paquin). O motivo de ter ido para lá é que Ada se casou com Stewart (Sam Neill) em um casamento arranjado, já que ela nem conhecia seu noivo.








Ada imediatamente antipatiza com Stewart quando ele se recusa a transportar seu amado piano. Stewart negocia o instrumento e o passa para George Baines (Harvey Keitel), um administrador da região. Atraído por Ada, Baines concorda em devolver o piano em troca de algumas lições no instrumento, que Ada daria para ele. Mas estas "aulas" se tornam encontros sexuais cada vez mais intensos, onde Baines pagava Ada com uma ou mais teclas do piano, sendo que o pagamento estava relacionado à intensidade de intimidade proporcionada. Porém, logo esta situação sai do controle, gerando trágicas conseqüências.O Piano 2010-05-22 Francisco Título original: (The Piano)

Lançamento: 1993 (Nova Zelândia)

Direção: Jane Campion

Atores: Holly Hunter, Harvey Keitel, Sam Neill, Anna Paquin.

Duração: 121 min

Gênero: Drama

16 setembro, 2011

Os Irmãos Grimm, de Terry Gilliam








Visão fantasiosa da vida dos autores da maior parte dos contos infantis que não podem ser atribuídos a Hans Cristian Andersen e a cujo baú a Disney foi buscar a sua inspiração para os maiores filmes de animação dos seus primeiros anos de criação.



Como se trata de um filme de Terry Gilliam, o animador (gráfico) de serviço dos Monty Python, ícones inultrapassáveis do humor britânico das décadas de 70 e 80, mais importante do que a história está a concepção visual e a abordagem mais fantasiosa possível ao material em mãos.



Lá se foram para o caldeirão todos os contos possíveis e imaginários dos Grimm (várias belas adormecidas, uma chapeuzinho vermelho, um lobo mau, uma floresta encantada, uma dúzia de sapatinhos de cristal, uma bruxa com uma maçã, uma rainha apaixonada pelo seu reflexo no espelho e com cabelos compridos como os de Rapunzel no topo de uma torre).



O resultado é um emaranhado das histórias que já conhecemos , como se fossem vividas pelos próprios irmãos Grimm, apresentados como trapaceiros que vivem às custas das crenças alheias, reconstituindo-as para depois extorquirem somas para a salvação das populações.



Os Grimm têm como missão desvendar o desaparecimento de várias donzelas, então, abordam a missão como uma de desmistificação, mas acabam envolvidos na maior aventura das suas vidas.



No cômputo, Gilliam pretende oferecer uma vez mais a eterna batalha entre o real e a fantasia, as teias que se tecem entre ambas, e a ameaça que constitui a censura da razão contra a fantasia. Mas estamos muito longe de “As Aventuras do Barão Munchausen”.



Matt Damon e Heath Ledger fazem o que podem com a confusão dos seus papeis e Peter Stormare está como peixe na água, sempre mais à vontade como idiota desmiolado (“Fargo” e “Armageddon”), do que noutros registos (péssimo Satanás em “Constantine”). Monica Bellucci está igual a si própria, habituada que está, a ser considerada a mulher mais bela do mundo em todos os filmes em que entra. Até este, ao menos!





Gostei? Sei lá, acabei dormindo...


04 setembro, 2011

Minhas palavras são como as estrelas que nunca empalidecem.

"O grande chefe de Washington mandou dizer que desejava comprar a nossa terra, o grande chefe assegurou-nos também de sua amizade e benevolência. Isto é gentil de sua parte, pois sabemos que ele não precisa de nossa amizade.

Vamos, porém, pensar em sua oferta, pois sabemos que se não o fizermos, o homem branco virá com armas e tomará nossa terra. O grande chefe de Washington pode confiar no que o Chefe Seattle diz com a mesma certeza com que nossos irmãos brancos podem confiar na alteração das estações do ano.

Minhas palavras são como as estrelas que nunca empalidecem.

Como podes comprar ou vender o céu, o calor da terra? Tal idéia nos é estranha. Se não somos donos da pureza do ar ou do resplendor da água, como então podes comprá-los? Cada torrão desta terra é sagrado para meu povo, cada folha reluzente de pinheiro, cada praia arenosa, cada véu de neblina na floresta escura, cada clareira e inseto a zumbir são sagrados nas tradições e na consciência do meu povo. A seiva que circula nas árvores carrega consigo as recordações do homem vermelho. O homem branco esquece a sua terra natal, quando - depois de morto - vai vagar por entre as estrelas. Os nossos mortos nunca esquecem esta formosa terra, pois ela é a mãe do homem vermelho.
Somos parte da terra e ela é parte de nós. As flores perfumadas são nossas irmãs; o cervo, o cavalo, a grande águia - são nossos irmãos. As cristas rochosas, os sumos da campina, o calor que emana do corpo de um mustang, e o homem - todos pertencem à mesma família.

Portanto, quando o grande chefe de Washington manda dizer que deseja comprar nossa terra, ele exige muito de nós. O grande chefe manda dizer que irá reservar para nós um lugar em que possamos viver confortavelmente. Ele será nosso pai e nós seremos seus filhos. Portanto, vamos considerar a tua oferta de comprar nossa terra. Mas não vai ser fácil, porque esta terra é para nós sagrada.

Esta água brilhante que corre nos rios e regatos não é apenas água, mas sim o sangue de nossos ancestrais. Se te vendermos a terra, terás de te lembrar que ela é sagrada e terás de ensinar a teus filhos que é sagrada e que cada reflexo espectral na água límpida dos lagos conta os eventos e as recordações da vida de meu povo. O rumorejar d'água é a voz do pai de meu pai. Os rios são nossos irmãos, eles apagam nossa sede. Os rios transportam nossas canoas e alimentam nossos filhos. Se te vendermos nossa terra, terás de te lembrar e ensinar a teus filhos que os rios são irmãos nossos e teus, e terás de dispensar aos rios a afabilidade que darias a um irmão.

Sabemos que o homem branco não compreende o nosso modo de viver. Para ele um lote de terra é igual a outro, porque ele é um forasteiro que chega na calada da noite e tira da terra tudo o que necessita. A terra não é sua irmã, mas sim sua inimiga, e depois de a conquistar, ele vai embora, deixa para trás os túmulos de seus antepassados, e nem se importa. Arrebata a terra das mãos de seus filhos e não se importa. Ficam esquecidos a sepultura de seu pai e o direito de seus filhos à herança. Ele trata sua mãe - a terra - e seu irmão - o céu - como coisas que podem ser compradas, saqueadas, vendidas como ovelha ou miçanga cintilante. Sua voracidade arruinará a terra, deixando para trás apenas um deserto.

Não sei. Nossos modos diferem dos teus. A vista de tuas cidades causa tormento aos olhos do homem vermelho. Mas talvez isto seja assim por ser o homem vermelho um selvagem que de nada entende.

Não há sequer um lugar calmo nas cidades do homem branco. Não há lugar onde se possa ouvir o desabrochar da folhagem na primavera ou o tinir das assa de um inseto. Mas talvez assim seja por ser eu um selvagem que nada compreende; o barulho parece apenas insultar os ouvidos. E que vida é aquela se um homem não pode ouvir a voz solitária do curiango ou, de noite, a conversa dos sapos em volta de um brejo? Sou um homem vermelho e nada compreendo. O índio prefere o suave sussurro do vento a sobrevoar a superfície de uma lagoa e o cheiro do próprio vento, purificado por uma chuva do meio-dia, ou recendendo a pinheiro.

O ar é precioso para o homem vermelho, porque todas as criaturas respiram em comum - os animais, as árvores, o homem.

O homem branco parece não perceber o ar que respira. Como um moribundo em prolongada agonia, ele é insensível ao ar fétido. Mas se te vendermos nossa terra, terás de te lembrar que o ar é precioso para nós, que o ar reparte seu espírito com toda a vida que ele sustenta. O vento que deu ao nosso bisavô o seu primeiro sopro de vida, também recebe o seu último suspiro. E se te vendermos nossa terra, deverás mantê-la reservada, feita santuário, como um lugar em que o próprio homem branco possa ir saborear o vento, adoçado com a fragrância das flores campestres.

Assim pois, vamos considerar tua oferta para comprar nossa terra. Se decidirmos aceitar, farei uma condição: o homem branco deve tratar os animais desta terra como se fossem seus irmãos.

Sou um selvagem e desconheço que possa ser de outro jeito. Tenho visto milhares de bisões apodrecendo na pradaria, abandonados pelo homem branco que os abatia a tiros disparados do trem em movimento. Sou um selvagem e não compreendo como um fumegante cavalo de ferro possa ser mais importante do que o bisão que (nós - os índios) matamos apenas para o sustento de nossa vida.

O que é o homem sem os animais? Se todos os animais acabassem, o homem morreria de uma grande solidão de espírito. Porque tudo quanto acontece aos animais, logo acontece ao homem. Tudo está relacionado entre si.

Deves ensinar a teus filhos que o chão debaixo de seus pés são as cinzas de nossos antepassados; para que tenham respeito ao país, conta a teus filhos que a riqueza da terra são as vidas da parentela nossa. Ensina a teus filhos o que temos ensinado aos nossos: que a terra é nossa mãe. Tudo quanto fere a terra - fere os filhos da terra. Se os homens cospem no chão, cospem sobre eles próprios.

De uma coisa sabemos. A terra não pertence ao homem: é o homem que pertence à terra, disso temos certeza. Todas as coisas estão interligadas, como o sangue que une uma família. Tudo está relacionado entre si. Tudo quanto agride a terra, agride os filhos da terra. Não foi o homem quem teceu a trama da vida: ele é meramente um fio da mesma. Tudo o que ele fizer à trama, a si próprio fará.

Os nossos filhos viram seus pais humilhados na derrota. Os nossos guerreiros sucumbem sob o peso da vergonha. E depois da derrota passam o tempo em ócio, envenenando seu corpo com alimentos adocicados e bebidas ardentes. Não tem grande importância onde passaremos os nossos últimos dias - eles não são muitos. Mais algumas horas, mesmos uns invernos, e nenhum dos filhos das grandes tribos que viveram nesta terra ou que têm vagueado em pequenos bandos pelos bosques, sobrará, para chorar sobre os túmulos de um povo que um dia foi tão poderoso e cheio de confiança como o nosso.

Nem o homem branco, cujo Deus com ele passeia e conversa como amigo para amigo, pode ser isento do destino comum. Poderíamos ser irmãos, apesar de tudo. Vamos ver, de uma coisa sabemos que o homem branco venha, talvez, um dia descobrir: nosso Deus é o mesmo Deus. Talvez julgues, agora, que o podes possuir do mesmo jeito como desejas possuir nossa terra; mas não podes. Ele é Deus da humanidade inteira e é igual sua piedade para com o homem vermelho e o homem branco. Esta terra é querida por ele, e causar dano à terra é cumular de desprezo o seu criador. Os brancos também vão acabar; talvez mais cedo do que todas as outras raças. Continuas poluindo a tua cama e hás de morrer uma noite, sufocado em teus próprios desejos.

Porém, ao perecerem, vocês brilharão com fulgor, abrasados, pela força de Deus que os trouxe a este país e, por algum desígnio especial, lhes deu o domínio sobre esta terra e sobre o homem vermelho. Esse destino é para nós um mistério, pois não podemos imaginar como será, quando todos os bisões forem massacrados, os cavalos bravios domados, as brenhas das florestas carregadas de odor de muita gente e a vista das velhas colinas empanada por fios que falam. Onde ficará o emaranhado da mata? Terá acabado. Onde estará a águia? Irá acabar. Restará dar adeus à andorinha e à caça; será o fim da vida e o começo da luta para sobreviver.

Compreenderíamos, talvez, se conhecêssemos com que sonha o homem branco, se soubéssemos quais as esperanças que transmite a seus filhos nas longas noites de inverno, quais as visões do futuro que oferece às suas mentes para que possam formar desejos para o dia de amanhã. Somos, porém, selvagens. Os sonhos do homem branco são para nós ocultos, e por serem ocultos, temos de escolher nosso próprio caminho. Se consentirmos, será para garantir as reservas que nos prometestes. Lá, talvez, possamos viver o nossos últimos dias conforme desejamos. Depois que o último homem vermelho tiver partido e a sua lembrança não passar da sombra de uma nuvem a pairar acima das pradarias, a alma do meu povo continuará vivendo nestas floresta e praias, porque nós a amamos como ama um recém-nascido o bater do coração de sua mãe.

Se te vendermos a nossa terra, ama-a como nós a amávamos. Preteje-a como nós a protegíamos. Nunca esqueças de como era esta terra quando dela tomaste posse: E com toda a tua força o teu poder e todo o teu coração - conserva-a para teus filhos e ama-a como Deus nos ama a todos. De uma coisa sabemos: o nosso Deus é o mesmo Deus, esta terra é por ele amada. Nem mesmo o homem branco pode evitar o nosso destino comum."

Makhpiyaluta Luta

01 fevereiro, 2010

Eternal Sunshine of the Spotless Mind


Imagine uma pessoa magoada com o fim de uma relação. Ela quer esquecer tudo que a lembre do ex ou da ex, certo? E agora imagine uma empresa que consegue apagar todas as memórias deste ex! Interessante, não?

Este é o roteiro do genial “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças”, um dos melhores já filmados em Hollywood. Na minha opinião uma das mais belas histórias de amor já filmadas!

O diretor francês Michel Gondry conta a história do casal Joel (Jim Carrey) e Clementine (Kate Winslet), e seus encontros e desencontros. O roteiro de Charlie Kaufman ganhou o Oscar de melhor roteiro original de 2005 (Kate Winslet foi indicada a melhor atriz).

A edição deste filme é uma loucura, principalmente nos momentos em que estamos dentro da cabeça de Joel e suas memórias estão sendo apagadas. A continuidade é cuidadosamente desconstruída: num plano o casal está num lugar cheio de pessoas, no plano seguinte o casal está no mesmo lugar, só que vazio; antes um objeto está lá, a câmera se movimenta e de repente o objeto desaparece.

Jim Carrey está irreconhecível e mostra que nem sempre é careteiro, e tem aqui a melhor interpretação de sua carreira. E além de Kate Winslet, temos Kirsten Dunst, Elijah Wood, Mark Ruffalo e Tom Wilkinson.

É daqueles filmes que dá vontade de rever, pra prestar atenção nos detalhes que passaram desapercebidos. Tudo está no lugar certo, cada cena, cada movimento, cada mudança de cor do cabelo de Clementine!

Trailler:

29 novembro, 2009

Pecados Intimos

O filme começa curiosamente, avança arrojadamente e termina magistralmente. A utilização de um narrador (Will Lyman) logo de início, provoca um inconsciente torcer de nariz, mas se mostra providencial, visto que não está a mais, nem comenta o óbvio, mas dedica-se a aumentar o nosso conhecimento das personagens, e é deliciosa também pela linguagem que utiliza enquanto cumpre essa missão.

Dentro da típica vidinha dos subúrbios, há duas almas insatisfeitas. Um homem e uma mulher. São ambos casados com outras pessoas, mas ao conhecerem-se por acaso (passeiam os filhos no mesmo parque infantil) ela sugere-lhe que a abrace para chocar as outras mães, criaturas fúteis e hipócritas que os espreitam de longe, e ele beija-a na boca. Está plantada a semente da mudança.

É uma história de adultério e intimidade, de sonhos perdidos e vontades prementes. É um filme de fugas para a frente e fugas para trás, é um filme onde nem sempre as fugas chegam a decolar.

E o casal adúltero mencionado não é a única linha de vida seguida. Seguimos também o itinerário de um psicopata sexual que se expôs uma vez a uma criança e regressou, após anos de internamento. E há um policial que gere uma milícia de bairro, de pais preocupados, cujo passado não é tão cristalino que lhe permita atirar a primeira pedra. Ninguém se comporta como deveria, ninguém tem um armário sem esqueletos, ninguém está satisfeito ou tem o que quer.

“Pecados Íntimos” é a desilusão da realidade, que faz mostrar o que poderia ser, mas não chega a ser. A coragem de se insinuar da prancha mais alta da piscina é desmentida quando volta a descer os degraus em vez de mergulhar. Mas não se pode criticar, as pessoas são assim mesmo.

05 agosto, 2009

Pecados Intimos

Dentro da típica vidinha dos subúrbios , um homem e uma mulher, duas almas insatisfeitas.
Ambos casados com outras pessoas, mas ao conhecerem-se por acaso (passeiam os filhos no mesmo parque infantil) ela sugere que ele a abrace para chocar as outras mães; criaturas fúteis e hipócritas que espreitam de longe. Ele a beija na boca.

Está plantada a semente da mudança.

É uma história de adultério e intimidade, de sonhos perdidos e vontades prementes. É um filme de fugas para a frente e fugas para trás, é um filme onde nem sempre as fugas chegam a decolar.

E o casal adúltero mencionado não é a única linha de vida seguida. Seguimos também o itinerário de um psicopata sexual que regressou após anos de internamento. Um policial que comanda uma milícia de bairro composta de pais preocupados, cujo passado não é tão cristalino que lhe permita atirar a primeira pedra. Ninguém se comporta como deveria, ninguém tem um armário sem esqueletos e fantasmas, ninguém está satisfeito ou tem o que quer.

“Pecados Íntimos” lembra “Beleza Americana” de Sam Mendes (escrito por Allan Ball, o mesmo de “Sete Palmos de Terra”) e “Happiness”, escrito e realizado por Todd Solondz. É a desilusão da realidade que mostra o que poderia ser mas não chega a ser.

A coragem de se insinuar da prancha mais alta da piscina é desmentida quando desce os degraus em vez de mergulhar.


Não cabem criticas porque as pessoas são assim mesmo. A vontade de ultrapassar os limites e sair da mesmice é tarefa árdua que poucos conseguem realizar por falta de coragem. A rotina, com o passar do tempo, acaba por se tornar um porto seguro de onde raramente zarpamos rumo ao mar.



12 junho, 2009

Uma carta de amor ou As palavras que nunca te direi?

As palavras que nunca te direi (Portugal) ou Uma carta de amor (Brasil) é um filme realizado em 1999 por Luis Mandoki. Foi baseado no romance homónimo As palavras que nunca te direi (livro) de Nicholas Sparks. Teve como protagonistas Kevin Costner, no papel de Garret Blake, Robin Wright Penn, no papel de Theresa Osborne e Paul Newman, no papel de pai de Garret. Foi filmado no Maine, Chicago e Wilmington, Carolina do Norte nos Estados Unidos da América.

Após um divórcio doloroso, Theresa Osborne (Robin Wright Penn) preenche sua vida cuidando de seu filho Jason e trabalhando como pesquisadora do jornal Chicago Tribune.
Certo dia, passeando pela praia, Theresa encontra uma garrafa contendo uma carta comovente e apaixonada, assinada apenas por "G".

A poesia e o sofrimento da carta atinge Theresa e a faz dar início a uma busca pelo autor, levando-a a Carolina do Norte.
Lá ela conhece Garret Blake (Kevin Costner), um construtor de barcos que desde a morte da sua mulher, carrega consigo a tristeza de uma vida solitária, exceto pelo relacionamento com seu pai, Dodge (Paul Newman), que tenta fazer com que seu filho pare de sofrer, e encontra Theresa uma nova chance do filho encontrar a felicidade.

Comentário: O filme acaba se tornando um dramalhão a partir do momento que os símbolos retratados no livro são colocados de lado.

Blake é um homem de natureza solitária e retrospectivo. Perde a mulher cedo e um tipo de remorso passa a guiar sua vida. Remorso pelas palavras que não foi capaz de dizer e pelas que gostaria de ter dito mas não teve tempo.

As cartas expressam os sentimentos e tudo que Blake não foi capaz de demosntrar em atos e palavras, ao colocá-las em garrafas e atirá-las ao mar o que ele está fazendo é mantendo seus sentimentos aprisionados e à deriva.

Ou seja, Blake é acima de tudo um egoísta que padece de sofrimento cronico e auto-comiseração. Não aprendeu nada nem mesmo quando conhece Thereza e nos dá a impressão de que está finalmente curado.

Ao salvar as pessoas que estão naquele veleiro sob o temporal que lhes seria fatal, Blake fica para trás, supostamente dando a vida para que outros se salvem.
Mais um simbolismo.

Blake é um exímio nadador, tem experiência e conhecimento porque é um homem do mar. Ao ficar para “trás”, ele está cometendo um suicídio voluntário porque não tem mais desculpas para evitar a sua entrega pessoal a um novo amor.
Ele deliberadamente escolhe abreviar sua vida ficando na tempestade pois não sabe como viver uma vida fora da garrafa e sem estar à deriva.

Thereza é o sonho que Blake ambiciona mas não confessa, pois confessá-lo seria abdicar do seu sentir silencioso e doloroso.

Desde o inicio ela se apaixona pelas palavras que não lhe pertencem, cria uma fantasia particular. Está só e sabe que aceitar o que ele pode lhe dar é amar em abandono. Não tem tempo de descobrir se essa aceitação poderia ser sustentada sem as cobranças de praxe.

A mensagem que tirei tanto do livro quanto do filme foi a mesma em todas as vezes que vi e reli a obra. O egoismo de pessoas que não se entregam numa relação porque são incapazes de amar e viver as suas emoções sem questionamentos. Não podem ser felizes porque precisam da dor e solidão para se sentirem donos de si mesmos.

Pessoas incapazes de perder o controle de suas emoções que buscam sempre as mil razões para não vencerem seus demônios pessoais e se entregarem. São indivíduos que amam demais e sofrem mais ainda, mas que não conseguem parar de olhar para dentro de si mesmas
e enxergarem o quanto fazem ou fizeram sofrer seus pares.

No final das contas, fica um sabor a nada e abandono, todos perdem. Todos represando sentimentos confinados em garrafas à deriva de si mesmos.

Entregar-se requer coragem para correr riscos.

Risco de amar e não ser amado na mesma medida, risco de se sentir só mesmo que a pessoa amada esteja ao nosso lado e não consiga nos tirar dessa solidão, risco de perdas e ganhos

E o pior risco de todos, risco de não se arriscar que é o mesmo que passar pela vida e não vivê-la.

Sobre a escolha do título para a tradução em português Brasil e Portugal, prefiro cartas de amor a represar palavras.

Nunca correrei o risco de não dizê-las ou escrevê-las - as palavras.

06 dezembro, 2008

Pulp Fiction

- “Não odeia isso? O quê? Os silêncios que incomodam. Por que temos que falar de idiotices para nos sentirmos bem? Não sei. É uma boa pergunta. É assim que sabe que encontrou alguém especial. Quando pode calar a boca um minuto e sentir-se à vontade em silêncio.”
Quentin Tarantino

Seqüência é longa, mas do detalhe do milk shake até a caminhada ao banheiro há um quê de genial em cada detalhe, a câmera pegando os atores em perfil, o jogo de plano contra-plano, os cortes entre um Vincent incomodado e Mia com olhar penetrante, a música compassada ao ritmo do diálogo, o ambiente anos 50, o tom de voz, o uso do canudo, tudo.

  • Os lábios vermelhos de Uma Thurman ao microfone,
  • O diálogo pré-assalto de Tim Roth,
  • Dois gangsteres com paletós ensangüentados. Zed está morto.

-"You always say that. That same thing every time, "I'm through, never again, too dangerous.

Pop e Inspiração. me deu vontade de ver de novo e pausar cada detalhe explicito .

E o melhor:

25 setembro, 2008

Romeu e Julieta (em dois tempos)

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A mais grandiosa história de amor que o mundo já conheceu teve uma admirável e incrível adaptação nesse filme de Franco Zeffirelli, que adapta o romance tragicamente belo de William Shakespeare com fidelidade e maestria.

É uma transposição literal do livro para as telas , sem cometer o pecado da infidelidade, transpondo tanto os personagens, quanto os diálogos, da forma que Shakespeare os escreveu.

Zeffirelli fez uma competente escolha. É puro romance no qual encontramos personagens fortes, dos quais ganham contornos ainda mais elegantes e realistas nas mãos de Zeffirelli.

Ele dirige maravilhosamente seu elenco, todos impecáveis, mas com destaque para a jovem dupla de atores que fazem Romeu e Julieta.

Sempre que leio o romance as formas que os personagens assumem no meu consciênte são os de Olivia Hussey e Leonard Whiting.

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Depois de 28 anos após ser adaptado para os cinemas nas mãos de Franco Zeffirelli com maestria, fidelidade e equilibrio, o conto romântico e trágico de Shakespeare ganha nova vida e fôlego nas mãos ousadas de Baz Luhrmann, sendo ousadia a palavra chave.

De início ao fim, parece que o filme vai explodir na tela, sensacional e grandioso, é um espetáculo audaz e ousado que coloca a dupla de apaixonados no século XX, um tempo moderno onde as espadas são substítuidas por armas e as famílias rivais são grandes empresas na cidade.

Baz mantem os diálogos originais de Shakespeare, não os modificando e tal escolha prova sendo ainda mais valiosa, já que o filme nunca desrespeita o valor inestimável da obra original, mas se mantém livre para fazer releituras diferentes e inspiradas. Baz cria um visual tremendo e belíssimo, incluindo direção de arte espetácular, mas o mais digno de aplausos é a trilha sonora, provavelmente uma das melhores do cinema, incluindo canções compostas originalmente para o filme, como a final, de Radiohead.

Leonardo DiCpario e Claire Danes não decepcionam e apesar de inferiores à dupla do filme de 1968, estão muito bem e produzem o resultado esperado: uma quimica de vanguarda.

04 abril, 2008

Where the Truth Lies - Verdade Nua


Entre a década de 50 e a de 70, o filme de Atom Egoyan deslaça um mistério enterrado no passado, através de uma parede de relatos contraditórios. Uma jovem jornalista procura a verdade por trás do homicídio de uma camareira de hotel, encontrada morta na banheira do quarto de hotel onde se encontravam hospedados Lanny Morris e Vince Collins, um duo de entertainers bem sucedidos e com alibis sólidos e popularidade suficiente para abafar o escândalo.

O filme nos apresenta uma história linear em quanto a investigação da jornalista entremeada com “flashbacks” da história de Vince e Lanny - e, como outros filmes que buscam “revelar os bastidores cruéis do showbusiness e de Hollywood”, aqui também nem tudo que se conta é verdade a primeira vista. Assim como a direção de Egoyan, a interpretação de Alison Lohman não sai da temperatura média, beirando quase a frieza, em um contraste com as boas intepretações de Kevin Bacon e Colin Firth. Os dois, inclusive, realmente parecem uma dupla em cena, sem distoar em nenhum momento, juntos ou separados.


Atom Egoyan aborda o mistério com um misto de distanciamento clássico, blasê e sonhador, misturado com uma frieza que nos mantém alertas. Ñão é um filme de fácil digestão, mas é interessante na forma como gere os dados, entrega as pistas e tece a trama de intriga, engano e sexo.


Bem, sem precisar estender mais comentários, o charme de Bacon funciona com o sotaque americano e a pose descomprometida, enquanto Firth mantém a composição de todos os seus filmes, uma cópia da timidez e inadaptação britânicas a que Hugh Grant nos habituou. Uma única nota negativa para a atriz Alison Lohman, um crasso erro de casting, que nem por um momento convence como a jornalista protagonista, já que não aparenta um dia acima dos dezasseis anos.

O filme vale pela interpretação dos dois atores e pela beleza e interpretação da atriz Rachel Blanchard.
Mas, para ser franca, há pelo menos uns 30 filmes diferentes que valem mais o seu tempo. Esse lembra demais as histórias de Sidney Sheldon (que descanse em paz!) ou tantas outras que você já viu no cinema, só que melhor filmadas.

Será que toda jornalista precisa transar com seus entrevistados para conseguir um “furo”? As meninas desse filme ao menos dizem que sim… Sem trocadilhos com a idéia do “furo”, mas alguma feminista pode se aborrecer com essa idéia. Ou não?

29 setembro, 2007

O Jardineiro Fiel

A sensibilidade inegável de Fernando Meirelles destilava de cada imagem do filme que o lançou internacionalmente em 2002, “A Cidade de Deus” (e da série “Cidade dos Homens”), mas é com intensidade reforçada, ainda que velada, que o crime e a miséria voltam a juntar-se na sua obra. Das favelas brasileiras passamos para o continente negro, especificamente o Quénia, palco de uma conspiração silenciosa de que somos todos cúmplices, mas a realidade sem lei confunde-se e mescla-se.

Este é um filme que tem de se apreciar lentamente, mas que nos arrebata desde o início. Todos os ingredientes estão lá, não falta nada, sobra emoção e sensibilidade. É uma história de amor, trágica como as melhores. Tem um mistério, uma investigação, um final redentor e inesperado, ou não fosse baseado numa obra de John Le Carré. A fotografia (ou cinematografia, como se chama realmente) é lindíssima e pelos cenários respira uma profundidade e cor indescritíveis. A qualidade dos atores é incontestável, Raph Fiennes e Rachel Weizs dispensam comentários, mas também se encontram preciosidades como Dennis Huston, Bill Nighy e Pete Postlethwaite. O conjunto explode literalmente com todos os nossos sentidos.

Para completar, os dois atores interpretam com pequenos toques que enriquecem ainda mais os personagens. Perceba, por exemplo, como o tímido Justin fala sempre com um tom de voz baixo e quase não revela emoções. É um homem contido até na hora em que recebe a notícia da morte da esposa. Quando conversa pessoalmente, mesmo com amigos, o diplomata jamais toca no interlocutor, uma característica típica de quem é muito tímido. Tessa, ao contrário, é desenvolta, olha diretamente nos olhos, fala com energia juvenil e está sempre fazendo um carinho naqueles com quem conversa – um aperto de mão, um toque nos cabelos, um abraço. São detalhes que conferem credibilidade ao longa-metragem como um todo.

A história transcende os personagens e o cenário, transcende os continentes e vai do Terceiro Mundo ao Primeiro, no tempo de um piscar de olhos. Coloca em cheque europeus e membros das Nações Unidas, como fazendo parte do grupo que vira o rosto e encolhe os ombros, como se não fosse nada com eles. É uma história que junta toda a Humanidade no mesmo bolo, mas há sempre ingredientes que ficam por cima e outros por baixo.

O pecado aqui é a ganância, e sobre o valor variável da vida humana. Há uma conspiração, mas desta todos fazemos parte. Já ouvimos falar de como as grandes indústrias farmacêuticas fazem testes em cobaias humanas, por toda a África mal nutrida e desprotegida, mas o que fazemos para evitá-lo?

O nosso jardineiro precisa que uma morte próxima lhe abra os olhos, mas a partir daí a verdade e a justiça sao seus únicos objetivos.

O Jardineiro Fiel é um filme de denúncia. O roteiro não parece muito preocupado em provocar algum suspense ou colocar cenas de ação. O destaque fica por conta da fotografia do uruguaio César Charlone (colaborador de Cidade de Deus). As imagens da África parecem saídas de um ensaio do Sebastião Salgado.

Já o mérito de Fernando Meirelles parece ser mesmo a sua capacidade de saber filmar a pobreza. Como a miséria das favelas africanas é a mesma (pensando bem é infinitamente pior) do que a das favelas brasileiras.

Para não dizer que “O Jardineiro Fiel” é perfeito, duas observações devem ser feitas. A primeira foi repetida por alguns críticos dos EUA: dizem que falta envolvimento emocional na história.

De certa forma é verdade, embora isso seja facilmente explicado pela condição de narrador que é assumida por Justin – e uma história contada por um homem introspectivo dificilmente seria emocionalmente envolvente. Outro ponto discutível é o final. Sim, a jornada põe Justin diante de uma perspectiva de vida muito diferente, mas é discutível se essa mudança seria capaz de provocar uma ação tão radical de um homem ponderado como diplomata. Nada disso conspurca a excelência da obra. Por fim, é imperativo louvar a excelente montagem não-linear do longa-metragem. Via de regra, é possível dizer que existem três tipos de diretores: (1) os que concebem o filme antes das filmagens, durante a construção do roteiro e dos storyboards, como Alfred Hitchcock; (2) aqueles que delineiam o filme durante as filmagens, mudando a trama conforme as performances dos atores, a exemplo de Wong Kar-Wai; e (3) os diretores que saem das filmagens apenas com uma idéia do filme e o modificam constantemente durante a montagem, até chegar a um formato final, caso de George Lucas. Fernando Meirelles é um entusiasta do terceiro time – e, se continuar a fazer filmes como “O Jardineiro Fiel”, logo se tornará referência fundamental para quem defende que a edição tem papel fundamental numa narrativa imagética.

Ficha Técnica
Título Original: The Constant Gardener

Gênero: Drama
Tempo de Duração: 129 minutos
Ano de Lançamento (EUA):
2005
Site Oficial: www.theconstantgardener.com
Estúdio: Focus Features / Scion Films Limited / Potboiler Productions Ltd.
Distribuição: Focus Features / UIP
Direção: Fernando Meirelles
Roteiro: Jeffrey Caine, baseado em roteiro de John Le Carré
Produção: Simon Channing-Williams
Música: Alberto Iglesias

Fotografia: César Charlone
Desenho de Produção: Mark Tildesley
Direção de Arte: Chris Lowe, Christian Schaefer e Denis Schnegg
Figurino: Odile Dicks-Mireaux
Edição: Claire Simpson

Elenco
Ralph Fiennes (Justin Quayle)
Rachel Weisz (Tessa)

Daniele Harford (Miriam)
Danny Huston (Sandy)
Hubert Koundé (Arnold Bluhm)
Richard McCabe (Ham)

Gerard McSorley (Sir Kenneth Curtiss)
Pete Postlethwaite (Marcus Lorbeer)
Anneke Kim Sarnau (Birgit)
Jason Thornton (Thomas)
John Keogh (Oficial da imigração)
Bill Nighy

18 junho, 2007

Casa de Areia










A idéia de Casa de Areia nasceu a partir da fotografia de uma casa abandonada, parcialmente soterrada pela areia, localizada no Nordeste. A história desta foto foi narrada ao diretor Andrucha Waddington pelo produtor Luiz Carlos Barreto, que já tinha a intenção de fazer um filme sobre o tema.


Casa de Areia mexe no imaginário. Explora sentimentos. Machismo. Solidão Paz. Plenitude. Solidariedade. Persistência. Crueldade. Lealdade. Todos, elementos presentes.Três boas razões que para ver ou rever Casa de Areia, filme de Andrucha Waddington:

O local, de beleza ímpar: Lençóis Maranhenses, a beleza natural e selvagem de um paraíso ecológico sem igual.

O elenco, que traz, pela primeira vez, num mesmo filme, mãe e filha – a Montenegro e Fernanda. A primeira Fernanda, (re)lembra a grandeza de ser atriz, construiu uma carreira sólida, brilhante, reconhecida nacional e internacionalmente. A Fernanda filha, é inteligente, ousada e dona de um senso de humor indiscutível e uma excelente atriz.Elas se alternam nos personagens. Fernanda Montenegro é Maria e Áurea. Fernanda Torres, idem.









A areia (o espaço) nunca pára enquanto o tempo não parece passar, cortado o contato com a civilização. “Casa de areia” tem um ritmo lento, marcando a eternidade e a monotonia do dia-a-dia de suas protagonistas. A bela fotografia de Ricardo Della Rosa (Olga) acentua esse cenário com um branco infinito, onde “o que não é chão, é céu”, nas palavras de Áurea.











Com características pouco comerciais, o diretor conta com a dupla de protagonistas para humanizar seu filme e é aí que ele tira a sorte grande. As Fernandas, mulher e sogra, dão um show, destacando que, no fim das contas, o filme é um drama simples de mulheres que querem seguir em frente.

Com um roteiro excelente de Elena Soárez , de poucos diálogos e poucas escorregadas, o diretor nos entrega uma obra de pura imagem e som, o melhor filme nacional dos últimos tempos. Acostumados com a idéia de que o espaço, um lugar qualquer, não se move - pelo menos a princípio – enquanto o tempo não pára, “andando” sempre para frente. Imagine uma situação em que ocorra o contrário: o espaço físico está em constante movimento e o tempo parece ter parado. É mais ou menos a proposta do filme.














A saga de Áurea começa em 1910, quando, em busca de um sonho que nunca lhe pertenceu, ela chega em caravana a um enorme labirinto de areia no Maranhão, Norte do Brasil. À procura de terras que o marido, Vasco, acredita serem prósperas, ela se vê condenada à vida num lugar inóspito, tendo como única companhia feminina sua mãe, Dona Maria. Grávida, e inconformada com o destino, a mulher faz de tudo para encontrar uma saída. Mas o tempo vai pouco a pouco transformando essa história embalada por profundos sentimentos, que vão do desespero à plenitude.

São 59 anos convivendo com a iminência da partida. A princípio impedida por Vasco, Áurea é obrigada a morar numa casa no alto de uma duna. Até que um dia, ao lado da mãe, ela presencia a morte do marido, soterrado na própria loucura e, num misto de dor e alívio, acredita estar livre. Mas, na verdade, virara refém da sorte.
Três gerações – Áurea, a mãe Maria, e a filha, também Maria. Em todas elas, a imensa solidão feminina e pior, a dependência da mulher à figura do homem.

Anos depois, o reencontro da anciã com a “filha da cidade”, que lhe traz de presente a música dos homens, além do sussurro do vento, do gorjeio dos pássaros e do canto do mar…

Ficha Técnica

Título Original: Casa de Areia
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 103 minutos
Ano de Lançamento (Brasil): 2005
Site Oficial: www.casadeareia.com.br
E
stúdio: Conspiração Filmes / Globo Filmes / Columbia TriStar Filmes do Brasil / TeleImage / Quanta Centro de Produções / LocaAventura
Distribuição: Columbia TriStar Filmes do Brasil
Direção: Andrucha Waddington

Roteiro: Elena Soárez, baseado em argumento de Elena Soárez, Luiz Carlos Barreto e Andrucha Waddington
Produção: Leonardo Monteiro de Barros, Pedro Guimarães, Pedro Buarque de Hollanda,
Andrucha Waddington, Luiz Carlos Barreto, Lucy Barreto e Walter Salles
Música: Carlo Bartolini e João Barone

Fotografia: Ricardo Della Rosa
Desenho de Produção: Fernando Zagallo

Direção de Arte: Tulé Peake
Figurino: Cláudia Kopke

Edição: Sérgio Mekler


Elenco

Fernanda Montenegro (D. Maria / Áurea - 1942 a 1969 / Maria - 1969)

Fernanda Torres
(Áurea - 1910 a 1919 / Maria - 1969)
Ruy Guerra (Vasco de Sá)
Seu Jorge (Massu - 1910 a 1919)
Luiz Melodia (Massu - 1942)
Enrique Diaz (Luiz - 1919)

Stênio Garcia (Luiz - 1942)
Emiliano Queiroz (Chico do Sal)
João Acaiabe (Pai de Massu)
Camilla Facundes (Maria - 1919)
Haroldo Costa (Capataz)
Jorge Mautner (Cientista)

Nélson Jacobina (Cientista)



Trailer











20 abril, 2007

Fome e sede de viver...

Fome de Viver (The Hunger, 1983), é um filme de terror onde não existe um vampirismo explícito, a palavra “vampiro” sequer é pronunciada no filme, paira no ar um clima de pavor sem palavras, os diálogos são curtos e simples, dizem muito menos do que querem dizer, e fazem gelar apenas com gestos, cores.

Não existem castelos, capas e
dentões sobressalentes. Os chupadores de sangue do filme são pessoas comuns, que andam a luz do dia e cravam um punhal egípcio em forma de crucifixo na jugular de suas vítimas.

A produção do filme é sofisticada, os vampiros são charmosos e refinados, tocam música clássica, têm figurino impecável e matam com muito estilo.

Vampiros e humanos são raças distintas, mas uma pessoa normal pode ter sua vida prolongada se dividi-la com uma dessas criaturas. Depois de séculos, humanos comuns esbarram num limite natural e em algumas horas envelhecem o que nãoenvelheceram em anos.

A abertura do filme é pincelada em um clima obscuro, curtos trechos em silêncio, gritos e grunhidos. A música que toca é um dos elementos que dão ênfase à narrativa, o baixo soturno de Bela Lugosi is Dead, do Bauhaus, cujo vocalista Peter Murphy se contorce para a câmera enquanto a canta numa boate nova-iorquina, onde o casal,seduz mais uma vítima.

O filme todo se dá ao som das obras de Sebastian Bach,
Delibes e Schubert, dando a cada cena um toque mais
profundo de
mistério, erotismo, terror e poesia.

Miriam é uma vampira egípcia que existência em algum momento de sua seduziu e transformou em um semelhante o nobre inglês John (David Bowie). Nem tudo é eterno na vida do casal. Agora, séculos depois , John começa a envelhecer, e o tempo corre contra ele.

Para a vampira este é apenas

mais um dos seus seduzidos,
a quem é ela deverá substituir assim

que chegar a hora. Ela não se livra de seus ex-amados,
todos são mantidos no sót
ão de sua mansão em Nova York.

Após ser procurada por John, Sarah(Susan Sarandon), pesquisadora que estuda os efeitos do relógio biológico, faz uma visita ao apartamento de Miriam com o objetivo de avaliar a degeneração física dele.
A vampira diz que John viajou para longe, despistando-a. Aqui seus olhares novamente se entrecruzam despertando desejo e luxúria. Miriam e Sarah, após uma conversa amena, entregam-se sem resistência.

A cena mais envolvente do filme acontece entre beijos e carícias
envoltas numa atmosfera de prazer entre duas lindas mulheres que buscam novas emoções. Cortinas esvoaçando ao som da ópera Lakme de Delibes, com o trecho Flower Duet dando o toque final na mais clássica cena de lesbianismo vampírico do cinema. Percebemos nitidamente que o vampirismo foi usado como uma metáfora para dar enlace a uma atitude sexual de forte impacto às próprias paixões e aspirações humanas.

A fome de viver aperta o indivíduo, que se vê impelido a buscar e dar continuidade à vida através do sangue. Sarah é contaminada e passa a depender de sangue humano para se manter viva. Sem entender as transformações que estão ocorrendo em seu organismo, entra depressão com dores, angústias, febres, suores frios, medo e por fim, uma estranha sede...

Na seqüência do filme, Sarah desentende-se com Miriam e acaba ficando enclausurada num quarto do elegante apartamento decorado com peças de arte grega e romana, alimentando-se de sangue... As cenas finais são compostas por espectros, caveiras, corpos em decomposição e vampiros, vítimas que haviam sido enclausuradas em caixões no sótão do apartamento.

Um John completamente decrépito surge novamente, um vento forte dá movimento às longas cortinas dando inicio ao pesadelo, ouvem-se gritos desesperados e a luta pela sobrevivência.

Miriam precipita-se do alto do sótão e cai a pique estourando todos os ossos de seu corpo. Os espectros começam a decompor-se até se tornarem cinzas. A beleza da vampira vai se esvaindo dando lugar à horrenda caveira que tem o aspecto roxo da própria morte...

O filme vai acaba embalado na sonata para violino e piano de Franz Schubert, remetendo de volta a beleza e poesia que foram o pano de fundo de todo o filme.

Agora Sarah é a herdeira da maldição de Miriam, a mais bela mulher vampiro que o cinema já
produziu...

Na época de seu lançamento, em 1983, o filme foi um fracasso de bilheteria, mas, com o passar dos anos, se tornou uma obra cult sobre vampiros.
Tudo nele marcou época: a ambientação, uma mistura de chique, decadente e macabro, edição bem feita, cenas lentas e bem montadas, câmera lenta usada com maestria, fotografia e maquiagem excelentes e o início do uso de clichês - cortinas esvoaçando, pombos voando em cenas lúdicas - que hoje em dia são tão comuns.


Cenas inesquecíveis

. Deneuve subindo as escadas da mansão levando o corpo do Bowie no colo,

Close na bunda do Bowie quando ele toma um chuveiro com a Deneuve,
. O mata-fome da Deneuve e da Sarandon. Sem comentários,
. O visual perfeito de lady Drácula que fizeram para a Deneuve - em especial o batom vermelho perfeitamente delineado.
. O envelhecimento de Sir John Bowie através dos efeitos de maquiagem,
Figurino impecável...
Bem, eu nunca vou deixar de gostar desse filme...

Fome de Viver (The Hunger, Inglaterra, 1983). MGM, 100 minutos
Direção: Tony Scott
Roteiro: James Costigan, Ivan Davis
Elenco: Catherine Deneuve (Miriam Blaylock); David Bowie (John Blaylock); Susan Sarandon (Sarah Roberts); Cliff De Young (Tom Haver); Beth Ehlers (Alice Cavender); Dan Hedaya (Lieutenant Allegrezza); Rufus Collins (Charlie Humphries); Suzanne Bertish (Phyllis)

Lembrando:
E para quem gosta de filmes sobre vampiros, o filme Drácula, estrelando como ator principal Frank Langella, lançado no ano de 1979, é uma das melhores adaptações do romance de Bram Stoker.

Não existe a crueldade, o mistério vai sendo tecido através da postura e das palavras, e ele, Drácula, no fundo da alma, é o vampiro demônio sedutor e cruel.
E sem mostrar explicitamente caninos afiados é um excelente filme de terror que não dá pra ver sozinho, nem a luz do dia!



Trailler


O encontro...

Matando a fome...

Bauhaus


"The Flower Duet" from Lakme,
Dessay and Maurus perform

A bailarina