O Jardineiro Fiel

A sensibilidade inegável de Fernando Meirelles destilava de cada imagem do filme que o lançou internacionalmente em 2002, “A Cidade de Deus” (e da série “Cidade dos Homens”), mas é com intensidade reforçada, ainda que velada, que o crime e a miséria voltam a juntar-se na sua obra. Das favelas brasileiras passamos para o continente negro, especificamente o Quénia, palco de uma conspiração silenciosa de que somos todos cúmplices, mas a realidade sem lei confunde-se e mescla-se.

Este é um filme que tem de se apreciar lentamente, mas que nos arrebata desde o início. Todos os ingredientes estão lá, não falta nada, sobra emoção e sensibilidade. É uma história de amor, trágica como as melhores. Tem um mistério, uma investigação, um final redentor e inesperado, ou não fosse baseado numa obra de John Le Carré. A fotografia (ou cinematografia, como se chama realmente) é lindíssima e pelos cenários respira uma profundidade e cor indescritíveis. A qualidade dos atores é incontestável, Raph Fiennes e Rachel Weizs dispensam comentários, mas também se encontram preciosidades como Dennis Huston, Bill Nighy e Pete Postlethwaite. O conjunto explode literalmente com todos os nossos sentidos.

Para completar, os dois atores interpretam com pequenos toques que enriquecem ainda mais os personagens. Perceba, por exemplo, como o tímido Justin fala sempre com um tom de voz baixo e quase não revela emoções. É um homem contido até na hora em que recebe a notícia da morte da esposa. Quando conversa pessoalmente, mesmo com amigos, o diplomata jamais toca no interlocutor, uma característica típica de quem é muito tímido. Tessa, ao contrário, é desenvolta, olha diretamente nos olhos, fala com energia juvenil e está sempre fazendo um carinho naqueles com quem conversa – um aperto de mão, um toque nos cabelos, um abraço. São detalhes que conferem credibilidade ao longa-metragem como um todo.

A história transcende os personagens e o cenário, transcende os continentes e vai do Terceiro Mundo ao Primeiro, no tempo de um piscar de olhos. Coloca em cheque europeus e membros das Nações Unidas, como fazendo parte do grupo que vira o rosto e encolhe os ombros, como se não fosse nada com eles. É uma história que junta toda a Humanidade no mesmo bolo, mas há sempre ingredientes que ficam por cima e outros por baixo.

O pecado aqui é a ganância, e sobre o valor variável da vida humana. Há uma conspiração, mas desta todos fazemos parte. Já ouvimos falar de como as grandes indústrias farmacêuticas fazem testes em cobaias humanas, por toda a África mal nutrida e desprotegida, mas o que fazemos para evitá-lo?

O nosso jardineiro precisa que uma morte próxima lhe abra os olhos, mas a partir daí a verdade e a justiça sao seus únicos objetivos.

O Jardineiro Fiel é um filme de denúncia. O roteiro não parece muito preocupado em provocar algum suspense ou colocar cenas de ação. O destaque fica por conta da fotografia do uruguaio César Charlone (colaborador de Cidade de Deus). As imagens da África parecem saídas de um ensaio do Sebastião Salgado.

Já o mérito de Fernando Meirelles parece ser mesmo a sua capacidade de saber filmar a pobreza. Como a miséria das favelas africanas é a mesma (pensando bem é infinitamente pior) do que a das favelas brasileiras.

Para não dizer que “O Jardineiro Fiel” é perfeito, duas observações devem ser feitas. A primeira foi repetida por alguns críticos dos EUA: dizem que falta envolvimento emocional na história.

De certa forma é verdade, embora isso seja facilmente explicado pela condição de narrador que é assumida por Justin – e uma história contada por um homem introspectivo dificilmente seria emocionalmente envolvente. Outro ponto discutível é o final. Sim, a jornada põe Justin diante de uma perspectiva de vida muito diferente, mas é discutível se essa mudança seria capaz de provocar uma ação tão radical de um homem ponderado como diplomata. Nada disso conspurca a excelência da obra. Por fim, é imperativo louvar a excelente montagem não-linear do longa-metragem. Via de regra, é possível dizer que existem três tipos de diretores: (1) os que concebem o filme antes das filmagens, durante a construção do roteiro e dos storyboards, como Alfred Hitchcock; (2) aqueles que delineiam o filme durante as filmagens, mudando a trama conforme as performances dos atores, a exemplo de Wong Kar-Wai; e (3) os diretores que saem das filmagens apenas com uma idéia do filme e o modificam constantemente durante a montagem, até chegar a um formato final, caso de George Lucas. Fernando Meirelles é um entusiasta do terceiro time – e, se continuar a fazer filmes como “O Jardineiro Fiel”, logo se tornará referência fundamental para quem defende que a edição tem papel fundamental numa narrativa imagética.

Ficha Técnica
Título Original: The Constant Gardener

Gênero: Drama
Tempo de Duração: 129 minutos
Ano de Lançamento (EUA):
2005
Site Oficial: www.theconstantgardener.com
Estúdio: Focus Features / Scion Films Limited / Potboiler Productions Ltd.
Distribuição: Focus Features / UIP
Direção: Fernando Meirelles
Roteiro: Jeffrey Caine, baseado em roteiro de John Le Carré
Produção: Simon Channing-Williams
Música: Alberto Iglesias

Fotografia: César Charlone
Desenho de Produção: Mark Tildesley
Direção de Arte: Chris Lowe, Christian Schaefer e Denis Schnegg
Figurino: Odile Dicks-Mireaux
Edição: Claire Simpson

Elenco
Ralph Fiennes (Justin Quayle)
Rachel Weisz (Tessa)

Daniele Harford (Miriam)
Danny Huston (Sandy)
Hubert Koundé (Arnold Bluhm)
Richard McCabe (Ham)

Gerard McSorley (Sir Kenneth Curtiss)
Pete Postlethwaite (Marcus Lorbeer)
Anneke Kim Sarnau (Birgit)
Jason Thornton (Thomas)
John Keogh (Oficial da imigração)
Bill Nighy

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