Dia dos Namorados


Eu não vi o jogo, que fique claro, MUITO CLARO, sou tricolor com direito a bandeira e ver jogo da arquibancada desde pequena, embora meu pai fosse, e ainda é lusa, sempre incentivou os filhos a serem tricolores, segundo time no coração.
Para azar dele e meu, os netos são corinthianos roxos.É isso que me faz escrever esse pequeno e bucólico texto.

Como dizia, não vi o jogo, mas ouvi os gritos, palavrões e criticas ferozes que vinham da sala. Quando a coisa ficava muito silenciosa, eu saia do quarto e ia espreitar o que se passava. Lá estava ele com a cabeça coberta pelo edredom se escondendo de alguma falta, só podia ser. Eu não sabia se era isso ou ele percebendo a minha presença evitava que eu lhe perguntasse o placar.

Claro que ouvia muitos rojões quicarem no céu, frutos de uma vizinhança muito aficionada e bem eclética em termos de torcida. E levando-se em conta o período de festas juninas, na minha cabeça o foguetório atribuía-se a última situação pois não ouvi gritos inflamados de gol pela casa.

Acabei adormecendo e só pela manhã soube que “em uma noite épica, o Sport coroou nesta quarta-feira, com uma vitória sobre o Corinthians por 2 a 0 na abarrotada Ilha do Retiro, uma campanha gloriosa para erguer o troféu da Copa do Brasil e garantir uma vaga na próxima Libertadores."

Dia 12 é comemorado o dia dos namorados, e nesse dia nós costumamos trocar presentes e fazer algo especial, ando meio sem ânimo, mas juntei o que podia e fui comprar o presente dele e do irmão e depois buscá-lo na escola para irmos almoçar fora. Ao me ver no carro já passou um olhar de lado e a pergunta mordaz, ainda fico impressiona com a evolução genética para certas particularidades de comportamento nas espécies:

- A que devo a honra da visita hoje? (Como ele, aos 12 anos, consegue ser mais cinico que eu com quase ...deixemos de lado esse detalhe).

- Vamos ao Burguer King ou prefere um ovo cozido? (Eu ainda estou em forma pois aqui a expressão facial conta muito, e a experiência de manter uma sombrancelha erguida e a outra não diz o que parágrafos inteiros não conseguem expressar).

Claro que a carranca se dissolveu quando ele entendeu as entrelinhas da minha resposta, pois se tocou que o dia 12 não era o dia depois da derrota e sim o nosso dia, como já havia sido estabelecido há anos bem antes dele nascer.

E nesse dia depois do almoço eu teria direito a siesta ao lado dele, mesmo que a Tv devesse estar ligada e ainda por cima no BALANÇA GERALDO (só com muito amor pra aguentar). No fundo eu acho que ele deixa nesse programa pra conseguir dormir, só pode. Um dia eu vou entender.

Nem preciso falar que caímos no sono, eu acordei primeiro e aproveitei para colocar o presente ao lado dele. O cartão era um tipo de carteira de identidade que existe a venda com os dados do clube. Deixei lá e fui tomar banho. Ele ao acordar e ver a tal carteira, ficou tão cego de raiva que nem viu o presente, jogou tudo que haviaem cima da cama no chão, esmurrou a porta do banheiro dizendo coisas que com tanta raiva e para sorte dele eu não entendi direito e se trancou no banheiro dele.

Quando terminei, fui até ele com o presente nas mãos e bati na porta:

- Que é?
- Abre...
- Tô tomando banho.
- Não perguntei o que o Sr está fazendo, mandei abrir a porta. (Usar o tratamento especial é sinônimo de que uma tempestade pode acabar se formando no ar, CUIDADO).
- Tô tomando banho.
- Se o Sr não abrir eu ponho abaixo
- Que cê quer? (o bichinho é duro)
- Quero te dar seu presente
- Eu vi o presente, cê ta tirando sarro
- Viu? Tem certeza?
- Vi, Eu tenho a carteirinha
- Pela ultima vez, abre e aproveita que eu tou calminha. Abre a porta. (Espero que ele não insista, poque caso contrário ou eu abro mesmo a porta ou vou falar "pela última vez" mais umas 10 vezes até começar a esmurrar a porta).

Ele abriu a porta e eu entreguei o presente. O rosto era uma expressão que mesclava pontos de interrogação com desafio e medo, mas não se mexia.

- Abre.

Ele abriu o presente e seu rosto se iluminou e os olhos se encheram de lagrimas. Eu apenas lhe disse:

- Eu odeio seu time, mas eu vou te amar pra sempre. Tonto!


Os que partiram o coração do meu Piá foram um tal de Carlinhos Bala e um tal de Luciano e as mães dos Srs.: Alicio Pena Júnior,Alessandro Rocha de Matos e Milton Otaviano dos Santos foram MUIIIIIIIITOOOOO desonradas na boca do povo e do meu filho. Que coisa feia!

Ah, o presente?

Uma camiseta da torcida de primeira linha, leia-se caríssima, estampada: SOU LOUCO POR TI CORINTHIANS (o hino da torcida)...e pasmem, uma bandeira oficial do time.

Meu fim?

Domingo meu irmão vem almoçar aqui, vai me mandar aquele olhar 43, meio de lado e dizer:

- Quando é que você vai começar a gritar “Corintchiá” também? E o pai? O que você acha que ele vai dizer disso, tá maluca? Pirou de vez? Tsc...Tsc..Tsc… Olha, juro…não esperava isso de você.

Nem eu, nem eu...

P.S:

O foguetório eram os anti-corinthianos comemorando, assim como os ant-tricolores, anti-qualquer time comemoram quando o rival perde, na minha casa quando o São Paulo joga, esse meu Piá, mais que o meu filho mais velho é anti-tricolor então ele torce sempre CONTRA o São Paulo, o primo dele é tricolor, mas quando tá longe do pai ( meu irmão), e junto do primo, canta o hino e torce para o "corintchiá", e meu pai "odeia" o terrorismo anti-tricolor. Mas o que conta é a farra que eles todos fazem um criticando a "doença" uns dos outros pelo "fanatismo" futebolistico que corre nas veias.

Fazer o quê? Tudo doido.

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