Já vem de berço...

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O HOMEM COMO SENHOR
Gravura asiática retrata a caça entre os nobres: animais usados para diversão dos ricos

Desde a Idade da Pedra o homem se empenha em
tirar o máximo de lucro da natureza. Só a atual
geração humana se preocupa com preservação


Os países ricos da Europa são admirados no resto do mundo pelo cuidado que têm com o meio ambiente. Alemanha, Holanda, Inglaterra e os países escandinavos viraram exemplo de como é possível conjugar desenvolvimento com respeito à natureza. A preocupação ecológica é sinal de civilização. Essa é uma concepção recente. Tem menos de quarenta anos. Antes disso, salvo algumas exceções, a idéia de civilização era relacionada ao potencial que uma sociedade tinha de subjugar, explorar e transformar o mundo natural. "Se a natureza for contra nós, seremos contra a natureza", eram as palavras de ordem do conquistador do século XIX Simon Bolívar, libertador da Venezuela, Colômbia, Equador, Peru e Bolívia. Subjugar a natureza foi a chave evolucionária que deu asas à ambição humana desde o paleolítico, quando o Homo sapiens começou a se impor como espécie dominante do planeta.

O filósofo grego Platão nota, em seus Diálogos, escritos há 2 500 anos, que as áreas de floresta nativa da Grécia já naquele tempo, de tão raras, eram usadas como locais de culto aos deuses das árvores. Os romanos produziam sujeira com a mesma liberdade com que ampliavam seu território imperial. Roma era um exemplo de cidade poluída, com fuligem, poeira, restos de curtimento de couro e de metais. O esgoto não tratado corria livre pelas ruas rumo aos rios. O mundo ainda tinha vastidões de florestas, habitadas por povos à margem da civilização.

As práticas de conservação visavam apenas à preservação do patrimônio de reis e potentados. Preocupados em zelar pela população dos animais que eram alvo de caçadas, soberanos ingleses acabavam conservando indiretamente os habitats em que esses bichos viviam, as chamadas florestas reais. Uma das iniciativas mais antigas de que se tem registro é um decreto do ano 1084 do rei William I, o Conquistador. Ele determinou um minucioso inventário de terras, bosques, áreas agrícolas e reservas para caça. Os alemães são apontados como os primeiros a se preocupar com o manejo das florestas – basicamente de pinheiros e coníferas. Eles dominavam a técnica da extração rotativa, que consistia em explorar alguns hectares, retirar a madeira e fazer o replantio de árvores. Em seguida, repetiam o processo em outra área, até que, depois de algumas décadas, a primeira terra explorada se havia recuperado. No entanto, a escala de destruição da natureza aumentou muito durante o século XVIII e ofuscou essas práticas isoladas.

No século XIX, as florestas eram vistas como fonte de riqueza que deviam produzir o máximo de lucro antes de ser abandonadas. O historiador Simon Schama, em seu livro Paisagem e Memória, conta como foi o processo de destruição de uma das maiores reservas da Europa, a Floresta Bialowieza, entre a Polônia e a Lituânia. Na época, a Polônia era domínio russo destinado a gerar o maior lucro possível. A floresta foi vorazmente devastada a partir das últimas décadas do século XIX, pois a região fornecia madeira como matéria-prima e combustível para o crescimento econômico da Alemanha. As toras de madeira nativa eram usadas principalmente para fabricar dormentes para a crescente malha ferroviária no Leste Europeu e também para construir vagões. Entre os animais que viviam na floresta, o bisão foi praticamente extinto. O esforço de recuperação da região teve início depois da II Guerra. As espécies de animais sob risco de extinção, como o bisão, começaram a ser reabilitadas pela introdução de algumas dezenas de exemplares que viviam em cativeiro em zoológicos e propriedades privadas de outros países europeus. Hoje, os 10 000 quilômetros quadrados que restaram da Bialowieza são a última amostra de floresta primitiva intacta na Europa.

A preocupação ambiental que incidiu sobre a Floresta de Bialowieza é reflexo de um fenômeno paralelo à devastação em escala industrial. Em 1866, o naturalista alemão Ernest Haeckel, seguidor das idéias de Darwin, usou pela primeira vez o termo ecologia, cunhado a partir da junção de duas palavras gregas, que significa "a ciência que estuda a natureza". Na mesma época, nos Estados Unidos, começaram a ser discutidas formas de preservação próximas das que conhecemos hoje. O engenheiro florestal americano Gifford Pinchot argumentava que a natureza era uma dádiva divina para uso cuidadoso e racional do homem. Em outra ponta, o filósofo conservacionista John Muir acreditava que a destruição era inerente ao homem, e a natureza precisava ser protegida. Em 1872, os Estados Unidos criaram – por decreto do Congresso – o primeiro parque florestal do mundo, o Yellowstone, com 8 000 quilômetros quadrados, no Estado de Montana, no norte do país.

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AS FLORESTAS VIRARAM NAVIOS
Alguns historiadores situam os primórdios da exploração dos recursos ambientais no Renascimento e nas revoluções científicas dos séculos XVI e XVII, épocas em que, para eles, a humanidade, no Ocidente, começou a tratar a terra como uma máquina que nunca se quebraria, por maiores que fossem os abusos. Nesse período, a destruição de florestas temperadas européias foi uma decorrência do uso da madeira como matéria-prima para construir navios, casas e para o aquecimento. Nos locais das antigas florestas, o solo era ocupado por plantações destinadas a abastecer as grandes cidades, cada vez mais populosas e vorazes no consumo de produtos agrícolas


TEXTO
: Natasha Madov e Marcelo Ventura

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