Sherazade e Shahryar



Sherazade casou-se com o rei Shahryar e ordenou à sua irmã que se sentasse ao pé de seu leito nupcial e lhe pedisse para contar, ao término de seu defloramento, uma história de ninar. Nessa época, Shahryar e Shahzaman já respondiam por duas mil, duzentas e treze mortes. Só onze dos mortos eram homens.

Shahryar, logo após desposar Sherazade e cativado por suas histórias, parou de matar mulheres. Shahzaman, não refreado pela literatura, prosseguiu em sua obra vingativa, abatendo de manhã a virgem que ele estuprara à noite, uma demonstração do poderio dos homens sobre as mulheres, da facilidade masculina para distinguir amor de fornicação e da inevitável conjunção, no que se refere ao sexo feminino, de morte e sexualidade.

A carnificina em Samarcanda continuou pelo menos por mil e uma noites, porque só no fim da narrativa de Sherazade, quando ela, a grande contadora de histórias, implorou para que o rei a poupasse, não em reconhecimento a suas aptidões, mas pelo bem dos três filhos que ela lhe dera naqueles anos fabulosos, e quando Shahryar confessou seu amor por ela, a última de suas mil e noventa e oito esposas, e abriu mão de todas as suas aspirações assassinas, é que a desforra de Shahzaman também chega ao fim. Purgado finalmente de seus desejos sanguinários, Shahzaman se casa com a doce Dunyazade.

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