Eles não disseram ...

As máximas têm uma função didática: ajudam a compreender a civilização. Citá-las é uma mania milenar. Transformá-las, de modo a adequá-las aos personagens e aos interesses históricos, tornou-se hábito. Menos comuns são as frases inventadas - mas elas também existem. No livro They Never Said It ("Eles nunca disseram isso"), Paul F. Boller Jr. e John George fazem uma coleção do dito e do não dito. Eis uma seleção:


"Um pequeno passo para o homem, um gigantesco passo para a humanidade."

Neil Armstrong, astronauta americano

Não foi exatamente essa a frase dita por Armstrong às 22h56 de 20 de julho de 1969. Assim que pôs os pés na Lua, o cosmonauta afirmou: "Um pequeno passo para um homem, um gigantesco passo para a humanidade". Devido à estática, a partícula a, em inglês ("um"), foi engolida. E o antológico comentário entrou para os anais de forma equivocada, ainda que a Nasa tenha distribuído uma nota corrigindo o erro.


"Elementar, meu caro Watson."

Sherlock Holmes, detetive inglês

Entre 1887 e 1927, o escritor Arthur Conan Doyle escreveu quatro novelas e 56 contos nos quais aparecem o detetive Sherlock Holmes e seu fiel parceiro, o médico John H. Watson. Holmes nunca disse as quatro palavras a Watson. Foi um ator britânico, Basil Rathbone, quem as soltou numa série de filmes feitos em Hollywood entre 1930 e 1940. A partir daí, tomou-se o "Elementar..." como real.



"Não tenho nada a oferecer a não ser sangue, suor e lágrimas."

Winston Churchill, ministro inglês

Quando Churchill se tornou primeiro-ministro britânico, seu discurso inaugural, em 13 de maio de 1940, trouxe a sentença famosa: "Não tenho nada a oferecer a não ser sangue, labuta, suor e lágrimas". Os assessores consideraram redundantes as expressões "labuta" e "suor". Decidiram suprimir a primeira.


"Desaprovo o que você diz, mas defenderei até a morte seu direito de dizê-lo."

Voltaire, filósofo francês

Em 1906, a escritora Evelyn Hall escreveu o livro Os Amigos de Voltaire. Numa passagem, referindo-se ao apoio de Voltaire a um contemporâneo que tivera seu livro condenado pelo papa, ela escreveu: "Desaprovo o que você diz, mas defenderei até a morte seu direito de dizê-lo, foi a atitude de Voltaire naquele momento". E assim nasceu a frase, como se fosse do filósofo.


"O Estado sou eu."

Luís XIV, monarca francês

"L'état c'est moi." Diz a lenda que o jovem Luís XIV (1638-1715) entrou abruptamente no Parlamento de Paris, vestido a caráter, interrompeu os debates e exclamou a diatribe, que virou um clássico.

Estudos recentes, contudo, mostram que não há registros históricos nos arquivos franceses da citação - embora ele certamente acreditasse no que teria dito.



"Que comam brioche."

Maria Antonieta, rainha francesa

Maria Antonieta (1755-1793) disse, sim, aos paisanos franceses que, já que não tinham pão, comessem brioche. Mas um historiador da Universidade Columbia descobriu que, muitos anos antes do nascimento dela, a frase já havia sido utilizada.

O filósofo Jean-Jacques Rousseau cita-a no livro Confissões, de 1778 - 11 anos antes da data em que Antonieta a teria proferido.



"Play it again, Sam."

Rick, personagem de Casablanca (1943)

O que aparece no filme é "Play it once, Sam... Play 'As Time Goes By'". Foi Ingrid Bergman (Ilsa), e não Humphrey Bogart (Rick), quem pediu ao pianista Dooley Wilson (Sam) que tocasse a música-tema do filme. Mas Dooley não tocou, apenas cantou - um profissional "dublou" o piano.


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