O Nascimento de Vênus


A cena retratada na pintura mostra Vênus, que nasce de uma enorme concha, sendo conduzida pelos ventos – os Zéfiros –, aqui representados por dois amantes. A deusa tem a seu lado direito, vinda do continente, a casta Hora, trazendo um manto florido para cobrir a sua nudez. Os ventos sopram rosas que perfumam todo o mar.

Esta passagem parece ser uma alusão ao poema de Homero, no qual Zéfiro sopra Vênus, logo após o seu nascimento, até a ilha de Chipre, onde ela é recebida por Hora, que a veste e a perfuma para que seja conduzida ao monte Olimpo, e tome o seu lugar junto aos deuses imortais. A cena remete ainda ao famoso quadro de Apeles (séc. IV a. C.), o grande pintor grego, que representa Afrodite com o epíteto de Anadiômene, "a que surge" das ondas do mar.

Com relação ao nascimento da deusa, duas versões podem ser destacadas. A primeira, mais antiga, mencionada em Apeles, é aquela presente no relato de criação de Hesíodo, a Teogonia. Nesta versão, Vênus/Afrodite nasce das espumas do mar, que são, na verdade, a mistura do sêmen e do sangue derramados de Úrano (o Céu), castrado por seu filho Cronos/Saturno numa disputa de poder. Em uma outra versão, encontrada na Ilíada, a deusa do amor nasce da união de Zeus e Dione.

É curioso notar que o aspecto mais terrível do mito fica fora desta composição: não há referências explícitas no quadro ao mito teogônico da castração. Em Botticelli, Vênus nasce de uma enorme concha, cujo simbolismo pode evocar as qualidades fecundantes, criadoras da água.

A postura da deusa sintetiza, ainda, a natureza dual do amor, ao mesmo tempo sensual e casto. Interpretada à luz do neoplatonismo, Vênus representaria a união de qualidades espirituais e instintivas, a transcendental "união de contrários" (ibid.). É o que Lopera et alii (1995:122) apontam como a fusão do reino da Venus Humanitas com a luz da Venus Coelestis, a luz divina.

As personagens que a acompanham só vêm corroborar esta visão. Do lado esquerdo, estão os amantes Zéfiros, que exalam o sopro, o espírito da paixão – materializado nas rosas –, através do qual a deusa recém-nascida é movida e inspirada. Do lado direito, vemos Hora representando a castidade, pronta a cobrir a nudez/sexualidade da deusa. Seu vestido, assim como o manto que carrega – ambos cobertos de flores –, podem ser ainda uma alusão à primavera, estação onde os poderes sensuais de Vênus estão no auge.

Todo o lirismo e poesia presentes na obra de Botticelli – "que se concentra menos na ação e mais no sentimento, através da adoção de uma atitude contemplativa" (ibid.:121) – fazem, em última análise, uma apologia da beleza que a figura de Vênus encarna. É a beleza que toma forma na água informe, fluxo contínuo, gerador de todas as coisas. "O Nascimento de Vênus" é uma alegoria, pela qual a mensagem divina desta beleza tão festejada chega ao mundo, através da síntese amorosa promovida pela já mencionada união dos contrários. Vênus é o poder que imprime a ordem transcendente nas coisas visíveis, traduzindo nas formas o spiritus perfumado e florido do divino.



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